Beberibe já é conhecida pelas falésias coloridas de Morro Branco. Além disso, guarda outro atrativo menos óbvio: uma lagoa de água doce formada dentro da própria faixa de praia. A Lagoa do Uruaú, no distrito de Sucatinga, é um fenômeno geológico raro e um dos maiores reservatórios naturais do Ceará.

O nome vem do tupi e significa “cesto grande”, numa referência ao formato da lagoa. Cientificamente, o Uruaú nasceu do barramento de um curso d’água original pela migração de areias vindas de campos de dunas. Esse mesmo processo, aliás, também formou boa parte das lagoas costeiras do estado.

Este guia, portanto, explica como a lagoa se formou, o que fazer no local e como organizar a visita com segurança. Tudo isso respeitando a área de proteção ambiental que a protege desde 1999.

Um fenômeno geológico dentro da praia

A Lagoa do Uruaú fica na Área de Proteção Ambiental (APA) criada pelo Decreto Estadual nº 25.355, de 1999. A unidade de conservação, assim, ocupa 2.672 hectares entre planície litorânea e tabuleiro pré-litorâneo, um dos ecossistemas mais frágeis do litoral cearense.

O processo de formação da lagoa levou séculos. Areia transportada pelo vento, vinda de campos de dunas próximos, foi bloqueando aos poucos o curso original de um rio. Até que, assim, represou completamente a água doce dentro dos limites da faixa arenosa. O resultado é uma lagoa de água tranquila, cercada de dunas, a poucos metros do mar aberto.

A biodiversidade da região impressiona: mais de 83 espécies de aves sobrevoam a vegetação de cajueiros, mutambas e murici-da-praia. No solo, por sua vez, preás, guaxinins e saguis dividem espaço com peixes de água doce, como carás e traíras, que vivem dentro da própria lagoa.

O que fazer na Lagoa do Uruaú

As águas calmas e mornas da lagoa favorecem esportes náuticos leves, como stand up paddle e caiaque. Para quem busca mais adrenalina, operadores da região também oferecem passeios de buggy pelas dunas ao redor. Em alguns pontos, há ainda tirolesa com vista para o espelho d’água.

Margeando a lagoa, barracas simples servem peixe, camarão e caranguejo, sempre acompanhados de bebidas geladas. A estrutura é rústica se comparada a praias mais urbanizadas da Rota das Falésias. Isso, aliás, reforça o clima de refúgio natural do lugar.

Seis comunidades tradicionais vivem dentro dos limites da APA, sustentadas principalmente pela pesca e pela agricultura de subsistência: Ponta D’Água I, II e III, Cumbe, Caetanos e Carrapicho. Outras cinco comunidades ficam nas áreas adjacentes, incluindo a própria Sucatinga.

Diferente de lagoas artificiais ou represadas por intervenção humana, o Uruaú é resultado de um processo inteiramente natural. Ele foi moldado ao longo de gerações pela força do vento e da areia. Essa origem, portanto, é o que torna a lagoa tão relevante do ponto de vista científico, além de atrativo turístico.

Praia do Uruaú: quando a lagoa encontra o mar

A poucos metros da lagoa, a Praia do Uruaú completa o cenário. Alguns moradores, aliás, também a chamam de Praia da Marambaia. Casas de veraneio cercam parte da lagoa, e a região é procurada também para a prática de esportes motorizados na água, como jet ski e lancha, em pontos específicos autorizados.

Essa combinação de lagoa de água doce, dunas e praia de mar aberto em um raio de poucos metros é rara mesmo dentro do litoral cearense. Isso, assim, reforça o caráter único do destino dentro da Rota das Falésias.

Equipamentos turísticos atuais

A estrutura ao redor da lagoa é composta majoritariamente por barracas de praia independentes e operadores locais de passeio de buggy e esportes náuticos. Antes de contratar qualquer serviço, vale confirmar se o operador está regularizado junto à Secretaria de Meio Ambiente. Afinal, a área é uma unidade de conservação com regras específicas de uso.

Entre as restrições da APA estão a proibição de construções sem licenciamento ambiental, o tráfego de veículos fora de trilhas pré-estabelecidas e qualquer forma de poluição dos recursos hídricos. Respeitar essas regras, portanto, é fundamental para preservar o equilíbrio ecológico frágil da região.

Dicas práticas para visitar a Lagoa do Uruaú

Como chegar. A partir de Fortaleza, o acesso é feito pela CE-040 até Beberibe, seguindo depois para o distrito de Sucatinga. O trajeto total leva entre 1h30 e 2 horas, dependendo do ponto de partida.

Melhor horário. Sair cedo de Fortaleza permite aproveitar o dia inteiro na lagoa, já que o trajeto até Sucatinga é relativamente longo. O fim de tarde, por sua vez, costuma render as fotos mais bonitas, com o pôr do sol refletido na água.

Cuidado com o trajeto final. Alguns acessos próximos à lagoa passam por trechos de areia solta, mais difíceis para carros comuns. Buggys e veículos com tração reforçada, no entanto, enfrentam esse trecho com mais facilidade.

Roteiro combinado. A Lagoa do Uruaú fica próxima da Praia das Fontes. Isso permite combinar as duas paradas no mesmo dia, sem necessidade de pernoite na região.

Respeito ambiental. Por estar dentro de uma unidade de conservação, evite deixar lixo, sair das trilhas demarcadas ou perturbar a fauna local. A preservação da APA, afinal, depende diretamente do comportamento de quem visita.

Em resumo, a Lagoa do Uruaú prova que a Rota das Falésias guarda segredos além das praias mais conhecidas. Entre dunas, água doce e comunidades tradicionais, Beberibe oferece um contraponto tranquilo à agitação do litoral urbano.